ESCOLA DE TEATRO

O Projeto

A estrutura funcional e o modelo artístico-pedagógico que irão constituir a formação da Escola Livre de Teatro são norteados pelo sistema de ensino adotado pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, instituição gerida pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), uma entidade de direito privado, constituída na forma de associação civil sem fins lucrativos ou econômicos.

A experiência formativa adotada pela SP Escola de Teatro tem sido reconhecida nacional e internacionalmente como de excelência por diversas organizações. O modelo pedagógico da instituição valoriza a multiplicidade das interfaces entre os campos do fazer e do refletir cênico.

O curso será implementado aproveitando-se dessa expertise, mas também reconhecendo e apreciando as necessidades locais, o contexto artístico no Estado de Mato Grosso e os equipamentos culturais disponíveis na cidade de Cuiabá.


OBJETIVOS

A multiplicidade de signos na contemporaneidade tem levado à falência os processos educacionais tradicionais, defasados em relação à realidade sociocultural atual. As novas tecnologias, a disponibilidade da informação instantânea e o desinteresse por um modelo de ensino retrógrado comumente levam os alunos ao não reconhecimento da instituição em que estudam. Alheios ao conteúdo que lhes é oferecido, muitas vezes sentem-se estrangeiros dentro de sua própria escola.

Um dos lemas da SP Escola de Teatro é propiciar uma organização sistêmica em que “todos respiram o mesmo ar”. Isso significa que todos os departamentos, cursos, formadores e aprendizes devem compartilhar os princípios e processos educacionais adotados. O sentimento de pertencimento amplia o potencial criativo dos envolvidos e garante a autonomia intelectual tão renegada pelas instituições de perfil conservador que insistem em modelos educacionais anacrônicos.

O primeiro Módulo da Escola Livre de Teatro a ser constituído na cidade de Cuiabá será nomeado Estúdio de Criação Cênica. Aproveitando-se da gestão pedagógica realizada por meio de projetos, desenvolvida na SP Escola de Teatro, o Módulo pretende capacitar técnica e artisticamente profissionais do teatro por meio de um sistema que leve em conta o modus operandi das artes cênicas no Brasil (majoritariamente constituída pelo teatro de grupo), o reconhecimento dos campos de trabalho em diversos nichos e a realidade dinâmica da modernidade.

Desse modo, entre as principais metas desse Módulo, podemos elencar:

Propiciar uma formação artística de excelência, apropriando-se de um sistema pedagógico inovador, já testado e reconhecido com sucesso, por meio de um quadro docente de altíssimo nível, composto por alguns dos principais nomes do teatro brasileiro contemporâneo;
Contribuir com a formação de cidadãos com os conhecimentos humanísticos e tecnológicos imprescindíveis para o mercado de trabalho atual. Assim, o aprendiz que focar seus estudos em Iluminação, não será apenas capacitado para desenvolver e operacionalizar desenhos de luz para montagens teatrais, mas também apto a apropriar-se desses conhecimentos para trabalhar com iluminação em concertos musicais, shows em ambientes públicos e privados, ambientações de exposições e eventos, etc. Do mesmo modo, os atores serão preparados por meio de uma educação versátil, que garanta seu desempenho tanto nos palcos tradicionais como em apresentações em estâncias turísticas, espetáculos de stand-up em bares, animação de festas, entre outros;
No plano social, tornar acessível saberes estéticos e técnicos que permitam o acesso profissional às diversas áreas das artes do palco: produção, dramaturgia, direção, atuação, cenografia, iluminação e sonoplastia. Trata-se de operacionalizar o processo de democratização ao universo teatral para diferentes camadas da população;
No plano pedagógico, o formador pisa no terreno do conhecimento ao lado do aprendiz, e ambos caminham em via de mão dupla na busca permanente pela excelência artística e humanística;
Desenvolver a noção de que o teatro, enquanto área de conhecimento, é capaz de desenvolver nos aprendizes habilidades perceptivas, reflexivas e críticas, não se limitando à autoexpressão e ao desenvolvimento espontaneísta da criatividade;
Aproximar por meio da linguagem teatral comunidade e equipamentos culturais da cidade;
Ensinar práticas e teorias da linguagem teatral, bem como familiarizar os aprendizes com seus códigos e articulações formais, aspectos expressivos, técnicas, materiais, contextualizando-os em diversos âmbitos – geográfico, social, histórico, cultural, psicológico –, tornando possível a compreensão da linguagem teatral como manifestação sensível, cognitiva e integradora da identidade;
Fazer trabalhos artísticos individuais ou coletivos, criando, improvisando, compondo, experimentando, atuando, interpretando com diferentes materiais, meios e técnicas;
Permitir a construção de um conhecimento e de uma visão sobre as criações artísticas como expressões de perspectivas coletivas e individuais em relação ao mundo, valorizando os saberes artísticos e os saberes provenientes de diversos campos;
Relacionar a experiência estética (na perspectiva da fruição) e a vida dos aprendizes, como possibilidade de edificação de um percurso de criação pessoal em arte relacionado à história das práticas sociais em distintos contextos de origem;
Compreender a arte como direito e dever numa educação orientada para a cidadania;
Valorizar o direito à manifestação e à necessidade de negociação de sentidos, em situações de produção e apreciação artística, considerando a diversidade cultural como fonte de interlocução, reflexão e respeito às diferenças;
Identificar e respeitar as diferentes manifestações artísticas e estéticas e suas relações de gênero, etnia, inclinação sexual, faixa etária, origem social ou geográfica, crença e limitações físicas ou mentais, estabelecendo critérios de acessibilidade social nos atos de criação e apreciação de trabalhos artísticos.

APORTE TEÓRICO
A educação integrada conduz as ações do Módulo de Criação Cênica Coletiva. Sua inspiração nasce da inquietação dos artistas em sua lida e é ancorada num hibridismo alentador de conceitos de alguns dos principais intérpretes contemporâneos da formação do pensamento e da cultura, dentre eles:

Autonomia

A pedagogia da autonomia proposta pelo educador brasileiro Paulo Freire, segundo o qual “quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender”, em sincronia com a visão dialética de suas propostas educativas.

Territorialidade

A noção de território e de espacialização desenvolvida pelo geógrafo brasileiro Milton Santos, que entende o lugar, seja público ou privado, como o “espaço do acontecer solidário”.

Visão sistêmica e sustentabilidade

A visão sistêmica do processo cognitivo, uma interpretação emprestada do físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, cuja abordagem absorve o todo sem abortar as particularidades que a oxigenam. A inspiração vem do conceito de que sustentabilidade é uma rede de relações flexível para se adaptar a condições mutáveis onde a transformação é contínua e que se apresenta em cinco características básicas: interdependência, reciclagem, parceria, flexibilidade e diversidade.

SISTEMA PEDAGÓGICO
A compreensão global do artista e do ser humano encampa o sistema pedagógico numa dinâmica que entende o formador e o aprendiz de modo horizontal. Confluem aptidões, autobiografias e visões de mundo em prol de uma formação contínua. A busca é pelo intercâmbio de saberes teóricos, deontológicos, formais e sensibilizadores na esteira das histórias pessoais e coletivas.

A terminologia também possui importância vital nesse sistema. Assim, professores e alunos são nomeados como formadores e aprendizes, respectivamente, expandindo a natureza prática do aprendizado.

Os conceitos de disciplina e grade curricular, que carregam uma carga negativa herdada da ditadura militar, são substituídos por componente e matriz. Contudo, mais do que uma mudança apenas semântica, isso representa também um comprometimento com uma outra forma de educar, na qual o conhecimento é construído junto ao aprendiz de modo integrado e articulado, sem hierarquia ou sistematização condicionada ao acúmulo temporal de conhecimentos, além de pressupor o intercâmbio de informações, por meio de entrecruzamentos de percepções lançadas por formadores e aprendizes vindos de trajetórias distintas.

Expansão Horizontal

O projeto busca a expansão do formador e do aprendiz em horizonte vasto de possibilidades. O objetivo é deixar a pedagogia tradicional dar lugar a um espaço de compartilhamento de ideias, em um processo artístico-pedagógico que valorize as relações humanas e no qual cada um amplie a sua visão para o todo, expandindo o conhecimento horizontalmente para além de sua arte, em todas as direções artísticas.

Para tanto, volta-se ao conceito da Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, pois “formar é mais que puramente treinar”. O professor está pronto para ouvir e, através da percepção do outro, instigar a transformação. O professor-formador aprende ao ensinar, o aluno-aprendiz ensina ao aprender, expandindo arte e cidadania em todos os contextos de sua vida.

Expansão Vertical

Expansão vertical propõe o aprofundamento das experimentações formativas propostas pela SP Escola na relação do formador, seus aprendizes e o entorno, em seu percurso e vivências artísticas por meio de um projeto cênico, permitindo um profundo mergulho para dentro de si, das artes e das relações com o meio.

Contaminação pela Arte

O conceito de educação comunitária nos exemplifica como trabalhar na perspectiva de uma expansão horizontal: envolver todos os agentes do local,  sejam eles formadores, aprendizes, pais ou a própria comunidade, para juntos construírem um projeto cultural próprio e uma ampla rede de relações baseadas no diagnóstico de suas carências e, principalmente, no reconhecimento das forças locais.

O conhecimento não deve ser imperativo, mas, sim, na expansão do fazer artístico, que, em nosso projeto, é construído de forma modular, por meio da epistemologia da linguagem teatral em constante fricção com as outras linguagens artísticas: artes visuais, música, literatura, dança, circo, entre outras. Dessa maneira, o Módulo deve valorizar a emancipação criadora, o pensamento crítico e a confluência absoluta de talentos e poéticas em detrimento da ênfase na relação hierárquica e do pendor acumulativo temporal que costumam minar as bases educacionais.

Pressupostos Pedagógicos
A estrutura orgânica do projeto atende a um pensamento holístico de mediação com as artes do palco. O funcionamento pedagógico é assentado nos seguintes elementos:

Módulo

Transcende a estrutura convencional do conteúdo sistematizado por semestre. Compreende um período de ensino e aprendizagem no qual coexistem um Eixo, um Operador e um Material a serem investigados e/ou estudados durante o desenvolvimento de um projeto cênico, permitindo a interação e o trabalho conjunto.

Eixo

Na conjunção da forma com o conteúdo, e vice-versa, o Eixo define as linhas de pensamento que atravessam ideias, linguagens e estéticas a serem investigadas pelos participantes do processo de criação teatral. Este ora tangencia as fontes históricas, ora persegue a ruptura potencializada no ato de criar no mundo de hoje. O Eixo deve estruturar e conduzir os processos de estudo e criação cênica.

Operador

O Operador é estruturado por um pensador apoiado em bases artísticas, filosóficas, sociológicas ou antropológicas. Ou seja, a cada Módulo, de acordo com o Eixo e o Material previstos, são definidos os pensadores que nos permitirão estabelecer discussões entre os formadores e aprendizes e aquilo que os rodeia, propiciando um olhar sobre o mundo. Trata-se da possibilidade de olhar para a vida com base num pensador que se torna o disparador/ provocador dos conteúdos que serão levados à cena. Num diálogo contínuo com o Eixo e o Material, o operador nos permitirá pensar a criação cênica dentro das imbricações entre a Forma e o Conteúdo.

Material

A cada proposição teatral e de acordo com o Eixo e o Operador, são definidos os materiais de trabalho que têm como objetivo encaminhar as investigações cênicas. Esses materiais funcionam como um tema que coloca os aprendizes em diálogo e atrito criativo com as suas poéticas ou fatos que tenham repercussão com o seu universo.

Em outras palavras, podemos dizer que os materiais são o objeto de tratamento e pesquisa cênica. Desse modo, o material pode ser um texto selecionado ou escrito pelos aprendizes. Ou então pode ser um fato histórico que tenha marcado a cidade, e que permita iniciar uma investigação envolvendo determinadas experimentações cênicas. Poderiam ser ainda materiais imagéticos de fotógrafos do século 20, que registraram relações éticas e morais no mundo, por exemplo.

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