Limpos e encardidos

15/03/2019

Limpos e encardidos

Divulgação

 

Anna Maria Ribeiro da Costa e Marília Beatriz de Figueiredo Leite
 

Espaço com barulho, vassouras em movimentos, gestos coordenados e ou dilacerantes, o limpar da matéria que irrompe até a alma, uma cortina despencada ou não-gestos que apontam para a deflagração do que brota ENCARDIDOS.

Uma peça de teatro ou o que? De tudo isso o que permanece em nosso pensar, em nosso emocionar, mas, sobretudo em nossa percepção são as ressonâncias privilegiadas entre o ver e o sentir, entre o arrepio e a contemplação.

Contemplação que é uma permanente questão à provocação que transforma o processo narrativo numa nova forma de encenar. Há uma dor conjugada entre os narradores/atores e espectador/autor; estes dão dimensão e ampliação ao grito que ecoa da interpretação. Cada gesto, cada máscara, cada filete cênico corta o coração da encenação para desabrochar um negro=negro, um negro silêncio, uma raça que se enrosca numa trama que despede dos Encardidos a possibilidade salvadora de acontecer a redenção.

A saga dos Encardidos mostra não o que pode ser mutável, mas o que é o aqui e o agora. A grande pergunta que fica: Será possível descobrir tal fato num espaço cênico?

E o que responde a esse questionamento é que a força trágica dos corpos e o sublinhar ora incandescente, ora manso da música são os facilitadores de uma nova forma teatral. Os adereços cênicos estão todos incrustrados a maior parte das vezes nos corpos dos atuantes. Cabelo, perna e braço vestem, dorso e ombro sustentam o que é jogado em nossa cara.

Ainda assim é preciso refletir que a dialética do teatro é a fascinante aventura do pensamento e da ação humana que aqui causa apenas aparência de autonomia.

A peça com corpo e som causa um incômodo, um desconforto, imprescindível nas ações das cenas que tratam de uma parcela dos excluídos.

As cenas lá vistas apontam diversas soluções significantes para dar conta do preconceito.

O que são negros? Quem são eles na sociedade nossa de todos os dias? Essas perguntas levam a constatação curiosa de que só os órgãos – olhos e ouvidos – diretamente unidos aos sentidos e como escavações em conexão com o cérebro conduzem pensamentos que, em geral dissolvem e mesmo quebram os sentidos mais viscerais.

Desse modo Encardidos é predominantemente um espetáculo de dominação visual e sonora dolorosa de corpos sonoros que se lançam no espaço ou que voam em busca de planos seguros para pousar. Com esses lances há uma inovadora linguagem cênica

Os atores Maykon Castrovicky e Danielle Souziel são movidos pela própria experiência do viver de ambos que torna o impulso criativo pleno de emoção. Essa emoção sublinha a plena entrega desenfreada ou a coletiva orientação segura. A direção é coletiva o que torna o espetáculo mais contemporâneo ainda. Ninguém se mete a dono de nada. São os corpos que narram mais a excelente trilha sonora.

Importa ainda ressaltar que as cenas trazem os signos de denúncias, de solicitações. Tudo isso perpetrado numa controlada entrega cênica que celebra um ritual corporal necessário para exercer e retirar a sujidade dessa cor, desse cabelo, dessa pele e dessa alma escorraçada, lançada num buraco escuro e em obscuro silêncio.

Todos os signos são demonstrações da força que jorra das águas para desconstruir técnicas e princípios consagrados.

Encardidos limpos para novos tempos da arte Cênica em nosso chão! 

Nas linhas curvas do cérebro – porque a linha reta da cronologia histórica positivista não dá conta de explicar – os limpos Encardidos se impõem nos novos tempos do discurso cênico em nosso chão, em chão cuiabano, para denunciar. Ou melhor, para fazer com que brancos Encardidos, nos 300 anos da cidade, sintam em suas peles as agruras e as asperezas e as fragosidades e as escabrosidades e as amarguras dos quase cinco séculos de escravidão no Brasil.

Assim como “não se estuda o escravismo sem emoção”, a parafrasear Alberto da Costa e Silva, não se assiste/participa da peça teatral Encardidos sem emoção. Aos 130 anos da abolição oficial da escravatura no Brasil, um quadro desesperador de violência é fixado no cenário brasileiro frente ao crescimento da taxa de homicídios entre negros e pardos. De acordo com o “Atlas da Violência 2018”, a população negra, jovem e de baixa escolaridade continua a totalizar o maior número das vítimas de homicídios: a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Último país das Américas a libertar os escravos, a abolição da escravatura foi insuficiente para proporcionar aos ex-escravos condições justas e igualitárias. Em sua maioria analfabetos e sem acesso à terra, continuaram vítimas do racismo. O preconceito, a discriminação e a concepção de que o negro só caberia na ordem societária para realizar serviços pesados deixaram resultados extremamente danosos e que se estendem até os dias de hoje, tão bem expressados nas vassouras – objetos-personagens – de Encardidos.

Diante desse palco chamado Brasil, a violência e a desigualdade têm cor! Como afirmam Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes: “os negros morrem antes, estudam menos, têm menos acesso ao mercado de trabalho, contam menos anos de educação, sofrem com mais atos de sexismo, possuem acesso mais restrito a sistemas de moradia e acompanhamento médico.”

No século XVI, encadeados em correntes, milhares negros chegaram da costa Atlântica da África. A lembrar dos portos de Gorée, no Senegal, e de Uidá, em Benin, hoje “Casa dos escravos” e “Porta do não retorno”, respectivamente, esses espaços eternizam histórias da cruel traficância de escravos. Um museu e um memorial, símbolos tombados pela Unesco que imortalizam histórias do tráfico negreiro que riscou o Atlântico por incontáveis vezes. Como um monumento mato-grossense, o tablado da Companhia Cena Onze, em Encardidos, se apresenta como um portal artisticamente ornamentado. Nele, se imortalizam histórias de atos violentos, de constrangimentos físicos e morais, com instrumentos de injustiça que chegaram junto aos negros em trajetórias de sofrimentos. Em quase quinhentos anos, cruzaram mares tenebrosos da discriminação, quando milhares de negros foram arrancados compulsoriamente do continente africano. De 1550 até 1862, estima-se que 5 milhões de africanos desembarcaram no território brasileiro.

Fragmentos de histórias de Maykon Castrovicky e Danielle Souziel, atores de Encardidos, chegam até nós porque tiveram a coragem de revelar os maus tratos impostos pelo racismo que se deitou e deleitou desde suas infâncias; que atinge em cheio gentes negras, pardas, encardidas. Descortinados no espaço cênico de Encardidos, Maykon Castrovicky, Danielle Souziel, Edilson Oliveira, Lysabeth Reis, Priscila Freitas, Lucas Gerônimo e Jane Klizke, sob a batuta do “maestro” Manoel Vieira. Em cumplicidade, trazem do passado escravista para o presente escravizado cenários de incontáveis gentes que têm na pele negra a mira do tiro ao alvo, o ponto de convergência de gentes brancas encardidas. Gentes brancas encardidas que dirigem tiros certeiros em seus corações, em suas mentes, em suas almas, a deixarem cicatrizes profundas inscritas como um texto em suas memórias, em memórias ancestrais.

 

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